Tinha-se desunhado para conseguir bilhetes. Afinal de contas, tinham sido muitas as noites em que cada uma daquelas melodias lhe amparava a solidão. Tinham sido muitas as noites em que cada uma daquelas letras parecia ter sido escrita para legendar fragmentos da sua dor. Mas agora, que estava ali, bem no meio da multidão, uma inquietação difusa insistia em atrapalhar-lhe a comoção. Por mais que tentasse mergulhar no ambiente intenso do concerto, estava mais atenta ao ar de enfado do Mário. Quanto mais o tentava puxar para si, mais a distância parecia crescer e crescer. E a pergunta: “mas este tipo não tem mesmo noção nenhuma do quão isto é importante para mim?” ecoava-lhe de tal forma na cabeça que, de repente, o concerto já só parecia uma formalidade para assinalar no instagram. Às páginas tantas, o Mário decide ir buscar bebidas. E, finalmente, a Joana pôde, por uma vintena de minutos, mergulhar no concerto. Dançar, cantar em uníssono com a multidão, comover-se. Até que o concerto terminou, num registo épico, com a multidão a dançar à chuva e o artista a convidar os fãs para subirem ao palco, para a celebração final. E do Mário nem sinal. Entre mensagens e chamadas frustradas, a Joana vai caminhando pelo recinto, até que dá de caras com o Mário agarrado a uma ex-namorada. Ficou destroçada. E assim permaneceu por longos meses.
Até que o João insistiu em entrar na sua vida. E, pouco a pouco, fez questão de meter o Mário a um canto: era interessante, inteligente, sensível, atento, firme, vivaço, bondoso; um poço de charme. E a Joana andava nas nuvens. Nunca se tinha sentido tão sintonizada com ninguém.
O João, num daqueles golpes de charme, desunhou-se para surpreender a Joana: conseguiu bilhetes para o esgotadíssimo concerto do seu artista predileto. Corria bem a noite, com o casal a desfrutar de toda aquela beleza. Até ao momento em que o João se ofereceu para ir buscar bebidas. Aquele movimento cuidadoso de quem não queria que a namorada perdesse pitada do seu concerto de sonho, caiu que nem uma bomba na Joana. Num ápice, o seu rosto transfigura-se para uma sisudez que o João nunca lhe vira. Agarra-se com força ao braço do namorado e num tom duro e autoritário diz-lhe: eu vou contigo. O João tenta compreender o que se passa. E, sem perceber bem como, a Joana está, irreconhecível, a discutir consigo no meio da multidão.
As pessoas (todas as pessoas!) transportam o essencial da sua história relacional para cada uma das suas novas relações significativas. É assim com as mágoas e os desamparos. É assim com as experiências mágicas, de sintonia, que foram guardando. E vão construindo padrões relacionais. E, sem se darem conta, vezes de mais vão empurrando o outro (significativo) para replicar consigo os padrões a que se foram habituando... na secreta esperança de que o outro (significativo) seja capaz de quebrar o padrão e de se dar como parceiro na construção de novos modos de relação, mais livres, vivos e saudáveis.
Nota: Atendendo ao profundo respeito pela intimidade das pessoas que me dão o privilégio de guardar as suas histórias e aos princípios deontológicos a que estou vinculado (de sigilo, nomeadamente), como não poderia deixar de ser, este, como todos os textos do blogue - sendo, uma ou outra vez, inspirados num ou noutro aspeto de histórias reais - está muito longe de corresponder a uma descrição literal.


