E se marcássemos às 9?

07Jul.

   Chegara a casa cabisbaixo do trabalho. A Marta, apressada a fechar mais um relatório, nem notou. Mas o Pedro não desarmou e atirou um: “estou triste. Preciso de colo”. Não que a Marta seja sempre assim. Mas, naquele dia, não lhe saiu mais do que um seco e agreste: “lá estás tu com as tuas coisas. Não vês que tenho de trabalhar?”

   O Pedro andava às voltas com a tristeza – e com o desamparo pelo qual se sente engolido de cada vez que os seus apelos de acolhimento ficam sem resposta. Com a Marta e com todas as pessoas importantes da sua vida. Talvez por isso, se tenha deixado mergulhar nas histórias em que se sentiu a ir da tristeza ao desamparo.

   Passavam pouco mais de duas horas sobre o momento em que o seu chão ruiu. A Marta decidira sair de casa. A caminhada errante, pela cidade, não desvaneceu a sensação de queda livre, abismo abaixo. Decidira ligar ao Manuel, amigo de todas as horas. “O Manuel é boa pessoa, mas fica muito atrapalhado”, explica-me. Convidou-o para ir a uma festa; desfez-se em frases feitas, e disse-lhe para ter calma, que mulheres há muitas. O telefonema não durou mais de 5 minutos. A esta distância reconhece que só queria ser ouvido. E poder chorar acompanhado, sem conselhos, frases feitas ou soluções milagrosas.

   Conta-me, muito irritado, um outro episódio que o marcara. Quando entrou no velório da sua madrinha muito querida, o Pedro e a prima correram para os braços um do outro, desabando num choro convulsivo. Um choro libertador, explica-me: “no meio da gigantesca perda daquela mulher tão fundamental para mim - foi quase minha mãe! - soube-me bem partilhar a dor com a minha prima. Estávamos os dois a sentir o mesmo. Profundamente tristes, mas acompanhados. Até que vem uma senhora, que eu não via há uns 20 anos – e de quem, de resto nunca gostei – separar-nos e dizer: - pronto, já chega! Mas, quem é ela para dizer que já chega? Quem é ela para nos dizer que não podíamos expressar, juntos, a nossa dor? A verdade, é que quebrou o momento, e voltámos, cada um de nós, ao ar formal de quem tem que engolir a dor, conformado”.

   Interpela-me, irritado: “mas porque raio as pessoas lidam tão mal com a tristeza no outro? De que é que têm medo? O que é que as assusta? Ou só têm espaço para os lados divertidos e corajosos? Estou farto de me partir ao meio, para engolir as minhas mágoas! Porque raio a Marta passa a vida a ouvir Elis Regina, Tom Jobim e Nick Cave, mas depois eu que me amanhe com a minha tristeza? Só pode contactar com a tristeza com a mediação da música? E, ainda faz aquele ar de: - lá estás tu a ser choninhas! Irra. Bem, mas se eu levei uma vida inteira para conseguir falar do que sinto, raios me partam se eu não vou exigir acolhimento nas minhas relações importantes! Passei a vida inteira a achar que a tristeza é defeito. Mas não é! É vida, quando partilhada. Foi isso que senti naquele abraço da minha prima, no velório da mulher que melhor soube dar espaço à minha tristeza”.

   O problema não será a tristeza. É natural, inevitável e indispensável, para metabolizarmos a dor que alguns acontecimentos de vida despertam. A questão será (quase) sempre: ao pé de quem é que posso ficar triste? Ao pé de quem é que posso sentir? Ao pé de quem é que posso pensar? E a vida que daí brota. Ou o desamparo que daí decorre.

   Já a revolta face ao desamparo será - também ela – um grito de vida e esperança: há-de haver quem me queira guardar, inteiro, dentro de si.

 

Nota: Atendendo ao profundo respeito pela intimidade das pessoas que me dão o privilégio de guardar as suas histórias e aos princípios deontológicos a que estou vinculado (de sigilo, nomeadamente), como não poderia deixar de ser, este, como todos os textos do blogue - sendo, uma ou outra vez, inspirados num ou noutro aspeto de histórias reais - está muito longe de corresponder a uma descrição literal.

02Jul.

   Com amendoins e bebidas a postos, o Bruno prepara-se para ver o jogo. Não que os jogos da seleção estejam a ser vibrantes, mas Mundial é Mundial, e não quer perder pitada. Até a Sara, que não acompanha futebol, parecia entusiasmada esta manhã, para verem juntos o jogo. Até que, mal espreita na porta, e o Bruno percebe, de imediato, que vem zangada. Genuinamente interessado, corre para ela e pergunta-lhe o que se passa. À Sara não lhe sai mais do que um: “nada, estou cansada”. O Bruno não desarma e insiste: “eu conheço-te, mulher! Estás triste e estás zangada. Com aquele ar de quem foi atropelado por um autocarro. O que é que se passa?”. “Não se passa nada, já te disse. Estou cansada. É isso. Não ias ver o jogo? Vou lá para dentro”. Deita-se sobre a cama, com o telemóvel, a espreitar o instagram das amigas, invadido por fotografias das férias nas Maldivas, enquanto, revia em loop, o destrato incontinente que o chefe lhe reservara, na reunião de equipa, entrecortado por um: “há quem tenha estas vida maravilhosas. Férias maravilhosas, trabalhos fantásticos. Maridos atenciosos. Se o Bruno gostasse mesmo de mim, já tinha cá vindo perceber o que se passava!”. Enquanto isso, o Bruno há muito que tinha desligado do jogo. Encolhido no sofá, remoía o chega para lá que a mulher lhe tinha dado: “bolas, interpelei-a uma vez, interpelei-a duas vezes. E nada. Caramba! Mas tem mesmo de meter aquela cara, em vez de se aninhar no meu colo e falar?”. Nos dois dias seguintes mal olharam um para o outro, quanto mais falar.

   Ao ouvir a história não tive como não me lembrar da cena típica de parque infantil: “Eu sou o Vasco. Queres ser meu amigo?” Talvez tenhamos muito a aprender com a transparência das crianças. Seja na hora de dizer gosto de ti. Seja na hora de nos zangarmos. Não deixa se ser inquietante que os adultos tenham um léxico muito mais rico e burilado do que as crianças. Mas, chegada a hora da verdade, vezes de mais, decidam que não conseguem melhor do que comunicar por sinais de fumo (na pouco secreta esperança de que o outro seja capaz de acolher, traduzir e devolver legendado), em vez de colocar as legendas todas.

 Nota: Atendendo ao profundo respeito pela intimidade das pessoas que me dão o privilégio de guardar as suas histórias e aos princípios deontológicos a que estou vinculado (de sigilo, nomeadamente), como não poderia deixar de ser, este, como todos os textos do blogue - sendo, uma ou outra vez, inspirados num ou noutro aspeto de histórias reais - está muito longe de corresponder a uma descrição literal.

25maio

  Ser guardião de histórias (de vida) é um privilégio. Umas são tremendamente duras; outras nem tanto. Algumas são extraordinariamente bonitas. Outras não serão tanto assim. Algumas surgem como uma narrativa fluída e integrada; outras precisam de respirar dentro de nós até se vestirem de palavras e narrativas que lhes construam um sentido.

  Ao longo dos anos fui escutando muitas histórias de mulheres e homens muito desencontrados com o Amor, muito magoados com a pessoa com quem partilhavam a casa e as contas, mas há muito já não a cumplicidade nem a admiração. Quase sempre ponderam a separação. Nunca de ânimo leve. Nunca sem dor. Quase nunca sem terem feito apelos vários (nem sempre claros, é verdade...) para que o/a parceiro/parceira os/as olhasse olhos adentro.   

  Formas mais ou menos encapotadas de persuasão ou de conselhos de algibeira podem ser muitas coisas. Psicoterapia não serão, com certeza. Uma relação clínica pressupõe – sempre! – um exercício de liberdade e autodeterminação. Quero com isto dizer que tento sempre não me arrogar o direito de saber que decisão devem os meus pacientes tomar. Muitos foram capazes de reabilitar casamentos que pareciam condenados, devolvendo-lhes a criatividade, o encontro e a paixão que estavam moribundas. Outros tantos foram capazes de se separar, num salto de fé no Amor e de esperança no futuro.

  Em (quase) todos os que se separaram emergiu um padrão: sentiram-se desamparados por muitas das pessoas com quem contavam naquela fase difícil. Tudo parecia passar-se como se, tomada a decisão, sentissem os amigos com quem outrora partilhavam intimidade, a  afastarem-se e a olhá-los de soslaio. Como se tomar decisões em função do que sentiam fosse uma espécie de acesso de loucura (ou de crise de meia-idade). Do mesmo modo que a deceção com estas pessoa as atirava direitinhas para o fundo do ranking das pessoas que contam, aqueles que não se assustaram com as suas angústias, mágoas e conquistas ascenderam rapidamente à categoria de relações imprescindíveis.

  Não tendo a validade estatística de um ensaio clínico “randomizado”, este padrão clínico não deixa de abrir espaço ao pensamento. Um divórcio (como qualquer decisão importante) de uma pessoa próxima instiga-nos a olhar para dentro: E eu? Estou feliz com a minha vida amorosa? Revejo-me nas minhas escolhas? O que é que eu quero deste casamento?

  Quando não somos capazes de nos colocar em causa, tenderemos a denegar, anular ou denegrir a diferença, mirrando, com isso, a nossa capacidade de crescer. Já quando o confronto com a diferença nos faz parar para pensar as nossas escolhas e mundivisões, o nosso mundo pula e avança!

  Há cerca de cem anos aprendíamos com Freud e Piaget que ninguém cresce (do ponto de vista emocional, relacional e cognitivo) à margem do encontro com o Outro diferente. Seria a relação com o Outro (diferente) que permitiria ao bebé abdicar do narcisismo primário (como lhe chamou Freud) em favor da relação. Seria a relação com o Outro (diferente) que permitiria ao bebé abdicar do egocentrismo inicial (como o denominou Piaget) para estabelecer os limites entre o dentro e o fora, o Eu e o Outro.

  Cem anos depois - seja a propósito das escolhas de vida das pessoas, da sua orientação sexual, da sua bagagem cultural ou país de origem - continuamos, vezes de mais, a deixar-nos amedrontar pela diferença. Quais saudosistas do paraíso perdido, comportamo-nos, vezes de mais, como se a diferença fosse a responsável pelo fim do sentimento oceânico (de que falava Freud) ou da “fusão perfeita” (e idealizada!) do ventre materno; qual maçã de Adão que nos atirou para fora do paraíso.

  Sempre que, pelo contrário, tomamos a diferença como a ponte que costura o desamparo (sempre que nos guia até à relação com o Outro), e nos abre para o conhecimento e o Amor, mais aptos estaremos para fazer face às dificuldades inevitáveis da vida e para construir paraísos no encontro com o Outro.

24Mar.

    Depois de um dia cheio, apanha o Tomás no infantário, que recebe o pai com brilho nos olhos e um abraço apertado. Ainda têm de passar no supermercado antes de iniciarem a rotina do jantar-banho-história para dormir, que a mãe já preparara, a correr. Em direção ao corredor da fruta (que é preciso comprar para o lanche do dia seguinte), o Tomás larga a mão do pai e precipita-se corredor dos brinquedos acima, em direção ao patrulheiro aéreo, da Patrulha Pata. O pai explica-lhe que não vão poder comprar, mas o Tomás não desarma. Começa por fazer aquele olhar suplicante de derreter o mais duro dos corações. Perante o insucesso das primeiras investidas sedutoras, endureceu a luta: puxou da mais exuberante das birras que tem no cardápio, e atirou-se para o chão, enquanto esbracejava e gritava: “mas, eu quero!”.

(Quem nunca cedeu ou ficou à beira de um ataque de nervos perante tão poderosa estratégia negocial, que atire a primeira pedra!)

    As crianças saudáveis fazem birras. Comunicam, através delas, desejos, medos, frustrações, angústias e cansaços vários. E ensaiam, através delas, o testar os limites, a afirmação de uma individualidade crescente, e a capacidade de lutar por ela. Mas as birras serão, as mais das vezes, muito mais relacionais do que instrumentais: uma espécie de apelo à capacidade contentora dos pais (dos avós ou dos professores). Ou, dito de outro modo, uma espécie de grito de vida a clamar: mamã/papá, façam o favor de me assegurar, por atos, que têm a força e a segurança suficientes para me pararem quando eu exagero (muito!). E, se não for pedir demais, façam o favor de traduzir em palavras tudo isto que estou a sentir, e que só estou a conseguir comunicar por sinais de fumo com muitos decibéis. É que, caso não tenham reparado, com a frustração de não ter já o patrulheiro aéreo eu até aprendo a lidar (com a vossa ajuda, claro!). Já a ideia de me deixarem sozinho com as minhas birras, ou de vos ver sistematicamente muito atarantados com elas, sem saberem o que fazer, deixa-me muito assustado. E crescentemente desamparado: se não têm a força para me parar quando exagero (muito!), como vão ter para me segurar quando eu precisar muito, muito? À cautela, vou fazer tantas birras quantas as necessárias até me provarem, por a + b, que me protegem de tudo (incluindo dos meus exageros). E quando isso acontecer, não me levem a mal, mas passado uns tempos vou ter que voltar à carga; especialmente quando vos sentir mais inquietos. É que, como sabem, isto de se construir segurança interna é uma empreitada persistente e prolongada".

    "Pensamento à procura de um pensador" foi a expressão quase poética de Bion, que primeiro me veio à cabeça ao pensar sobre birras. Talvez as birras, (quase) todas as birras – das crianças e dos adultos – tenham esta dimensão relacional, de quem faz apelos encriptados ao outro para pensar por si, primeiro, para poder pensar consigo depois, para que, finalmente, se possa abrir espaço para a interiorização da capacidade de pensar o que se sente.

Nota: Atendendo ao profundo respeito pela intimidade das pessoas que me dão o privilégio de guardar as suas histórias e aos princípios deontológicos a que estou vinculado (de sigilo, nomeadamente), como não poderia deixar de ser, este, como todos os textos do blogue - sendo, uma ou outra vez, inspirados num ou noutro aspeto de histórias reais - está muito longe de corresponder a uma descrição literal.

16Mar.

  Esforçou-se por me cumprimentar com a simpatia de sempre. Mas, naquele dia, não conseguia disfarçar a irritação em que se sentia mergulhada há um par de dias. Ainda mal se tinha acomodado na cadeira, e já deixara estalar o verniz. “Tenho-me sentido desconsiderada por toda a gente”, atira, fulminante. Descreve-me, zangada, uma série de incidências no trabalho: da chefe que agendou uma reunião, sem auscultar a sua disponibilidade de agenda; ao coordenador que a atirara aos leões numa reunião com a administração, passando pelos colegas que foram almoçar sem si. Parecia sentir-se como se, de repente, toda a empresa se tivesse unido para a tramar.

  Com a cabeça pesada, decidiu ir buscar a filha mais cedo ao infantário (mesmo que isso lhe custasse horas extra de trabalho, noite adentro). Precisava de sentir a beleza do mundo no abraço da filha. E, na verdade, andara todo o dia consumida por uma culpabilidade de fundo. Logo pela manhã tinha-se sentido a perder as estribeiras (e a moderação dos decibéis) sem nada que o justificasse.

  A pequena Francisca iluminou-se num sorriso rasgado quando viu a mãe, mas logo a seguir travou a fundo. Não foi de modas e não deixou o infantário sem ensaiar uma birra, que foi crescendo exponencialmente de exuberância, à medida que subiam os decibéis da zanga materna. Aquilo que seria, porventura, um protesto e um apelo da Francisca ao regresso da capacidade materna para a parar e serenar, foi sentido pela Maria como um ataque insuportável. Como é que a Francisca podia estar a ser tão ingrata, logo hoje que mandou o tudo ao alto para a ir buscar mais cedo? Como é que a Francisca se atrevia, logo hoje que precisava tanto de sentir a beleza do mundo no seu abraço?

  Depois destes relatos irritados que lhe saíram de rajada, a Maria parecia agora mais calma. A raiva parecia ter dado lugar a uma tristeza profunda. Passavam-lhe, pela cabeça, uns atrás dos outros, vários episódios de vida em que se sentira sem espaço, incompreendida, desqualificada, injustiçada. Deteve-se num em particular: seria um par de anos mais velha do que a Francisca. Esmerou-se a fazer um desenho para o pai. Quando o terminou correu, para ele. Mal podia esperar para sentir o seu olhar de orgulho.  Mas ele parou-a, de forma brusca, sem tirar os olhos da televisão, com um: “mas será que já não se pode ter sossego nesta casa, irra!”. Sem saber bem porquê, esta memória fez-lhe soar a campainha de alarme:

  E se estivesse só a projetar, na Francisca, dores suas? E se estivesse a exigir-lhe uma capacidade de acolhimento que, porventura, deveria era estar a pedir aos adultos imprescindíveis da sua vida?

  Talvez não haja muito como a infância (e os aspetos significativos da vida) dos adultos não se refletir, de forma muito significativa, no modo como gerem a relação com os filhos (com os companheiros, os pais, os amigos ou o trabalho). A ser assim, de cada vez que não encontram espaços relacionais para pensar a sua experiência emocional, mais próximos estarão de se tornarem prisioneiros dela. A ser assim, ora mais movidos pelo agir impulsivo, ora mais paralisados pelo desamparo e pelo isolamento, mais próximos estarão de projetar massivamente as suas experiências emocionais na relação com o outro, numa espécie de repetição contínua da mágoa.

  Pelo contrário, de cada vez que as pessoas encontram espaços relacionais que as ajudem a compreender e legendar a intensidade do que sentem, qual movimento de libertação da tirania da repetição e do desamparo, mais próximas estarão da liberdade de poder escolher fazer diferente.

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