E se marcássemos às 9?

25maio

  Ser guardião de histórias (de vida) é um privilégio. Umas são tremendamente duras; outras nem tanto. Algumas são extraordinariamente bonitas. Outras não serão tanto assim. Algumas surgem como uma narrativa fluída e integrada; outras precisam de respirar dentro de nós até se vestirem de palavras e narrativas que lhes construam um sentido.

  Ao longo dos anos fui escutando muitas histórias de mulheres e homens muito desencontrados com o Amor, muito magoados com a pessoa com quem partilhavam a casa e as contas, mas há muito já não a cumplicidade nem a admiração. Quase sempre ponderam a separação. Nunca de ânimo leve. Nunca sem dor. Quase nunca sem terem feito apelos vários (nem sempre claros, é verdade...) para que o/a parceiro/parceira os/as olhasse olhos adentro.   

  Formas mais ou menos encapotadas de persuasão ou de conselhos de algibeira podem ser muitas coisas. Psicoterapia não serão, com certeza. Uma relação clínica pressupõe – sempre! – um exercício de liberdade e autodeterminação. Quero com isto dizer que tento sempre não me arrogar o direito de saber que decisão devem os meus pacientes tomar. Muitos foram capazes de reabilitar casamentos que pareciam condenados, devolvendo-lhes a criatividade, o encontro e a paixão que estavam moribundas. Outros tantos foram capazes de se separar, num salto de fé no Amor e de esperança no futuro.

  Em (quase) todos os que se separaram emergiu um padrão: sentiram-se desamparados por muitas das pessoas com quem contavam naquela fase difícil. Tudo parecia passar-se como se, tomada a decisão, sentissem os amigos com quem outrora partilhavam intimidade, a  afastarem-se e a olhá-los de soslaio. Como se tomar decisões em função do que sentiam fosse uma espécie de acesso de loucura (ou de crise de meia-idade). Do mesmo modo que a deceção com estas pessoa as atirava direitinhas para o fundo do ranking das pessoas que contam, aqueles que não se assustaram com as suas angústias, mágoas e conquistas ascenderam rapidamente à categoria de relações imprescindíveis.

  Não tendo a validade estatística de um ensaio clínico “randomizado”, este padrão clínico não deixa de abrir espaço ao pensamento. Um divórcio (como qualquer decisão importante) de uma pessoa próxima instiga-nos a olhar para dentro: E eu? Estou feliz com a minha vida amorosa? Revejo-me nas minhas escolhas? O que é que eu quero deste casamento?

  Quando não somos capazes de nos colocar em causa, tenderemos a denegar, anular ou denegrir a diferença, mirrando, com isso, a nossa capacidade de crescer. Já quando o confronto com a diferença nos faz parar para pensar as nossas escolhas e mundivisões, o nosso mundo pula e avança!

  Há cerca de cem anos aprendíamos com Freud e Piaget que ninguém cresce (do ponto de vista emocional, relacional e cognitivo) à margem do encontro com o Outro diferente. Seria a relação com o Outro (diferente) que permitiria ao bebé abdicar do narcisismo primário (como lhe chamou Freud) em favor da relação. Seria a relação com o Outro (diferente) que permitiria ao bebé abdicar do egocentrismo inicial (como o denominou Piaget) para estabelecer os limites entre o dentro e o fora, o Eu e o Outro.

  Cem anos depois - seja a propósito das escolhas de vida das pessoas, da sua orientação sexual, da sua bagagem cultural ou país de origem - continuamos, vezes de mais, a deixar-nos amedrontar pela diferença. Quais saudosistas do paraíso perdido, comportamo-nos, vezes de mais, como se a diferença fosse a responsável pelo fim do sentimento oceânico (de que falava Freud) ou da “fusão perfeita” (e idealizada!) do ventre materno; qual maçã de Adão que nos atirou para fora do paraíso.

  Sempre que, pelo contrário, tomamos a diferença como a ponte que costura o desamparo (sempre que nos guia até à relação com o Outro), e nos abre para o conhecimento e o Amor, mais aptos estaremos para fazer face às dificuldades inevitáveis da vida e para construir paraísos no encontro com o Outro.

24Mar.

    Depois de um dia cheio, apanha o Tomás no infantário, que recebe o pai com brilho nos olhos e um abraço apertado. Ainda têm de passar no supermercado antes de iniciarem a rotina do jantar-banho-história para dormir, que a mãe já preparara, a correr. Em direção ao corredor da fruta (que é preciso comprar para o lanche do dia seguinte), o Tomás larga a mão do pai e precipita-se corredor dos brinquedos acima, em direção ao patrulheiro aéreo, da Patrulha Pata. O pai explica-lhe que não vão poder comprar, mas o Tomás não desarma. Começa por fazer aquele olhar suplicante de derreter o mais duro dos corações. Perante o insucesso das primeiras investidas sedutoras, endureceu a luta: puxou da mais exuberante das birras que tem no cardápio, e atirou-se para o chão, enquanto esbracejava e gritava: “mas, eu quero!”.

(Quem nunca cedeu ou ficou à beira de um ataque de nervos perante tão poderosa estratégia negocial, que atire a primeira pedra!)

    As crianças saudáveis fazem birras. Comunicam, através delas, desejos, medos, frustrações, angústias e cansaços vários. E ensaiam, através delas, o testar os limites, a afirmação de uma individualidade crescente, e a capacidade de lutar por ela. Mas as birras serão, as mais das vezes, muito mais relacionais do que instrumentais: uma espécie de apelo à capacidade contentora dos pais (dos avós ou dos professores). Ou, dito de outro modo, uma espécie de grito de vida a clamar: mamã/papá, façam o favor de me assegurar, por atos, que têm a força e a segurança suficientes para me pararem quando eu exagero (muito!). E, se não for pedir demais, façam o favor de traduzir em palavras tudo isto que estou a sentir, e que só estou a conseguir comunicar por sinais de fumo com muitos decibéis. É que, caso não tenham reparado, com a frustração de não ter já o patrulheiro aéreo eu até aprendo a lidar (com a vossa ajuda, claro!). Já a ideia de me deixarem sozinho com as minhas birras, ou de vos ver sistematicamente muito atarantados com elas, sem saberem o que fazer, deixa-me muito assustado. E crescentemente desamparado: se não têm a força para me parar quando exagero (muito!), como vão ter para me segurar quando eu precisar muito, muito? À cautela, vou fazer tantas birras quantas as necessárias até me provarem, por a + b, que me protegem de tudo (incluindo dos meus exageros). E quando isso acontecer, não me levem a mal, mas passado uns tempos vou ter que voltar à carga; especialmente quando vos sentir mais inquietos. É que, como sabem, isto de se construir segurança interna é uma empreitada persistente e prolongada".

    "Pensamento à procura de um pensador" foi a expressão quase poética de Bion, que primeiro me veio à cabeça ao pensar sobre birras. Talvez as birras, (quase) todas as birras – das crianças e dos adultos – tenham esta dimensão relacional, de quem faz apelos encriptados ao outro para pensar por si, primeiro, para poder pensar consigo depois, para que, finalmente, se possa abrir espaço para a interiorização da capacidade de pensar o que se sente.

Nota: Atendendo ao profundo respeito pela intimidade das pessoas que me dão o privilégio de guardar as suas histórias e aos princípios deontológicos a que estou vinculado (de sigilo, nomeadamente), como não poderia deixar de ser, este, como todos os textos do blogue - sendo, uma ou outra vez, inspirados num ou noutro aspeto de histórias reais - está muito longe de corresponder a uma descrição literal.

16Mar.

  Esforçou-se por me cumprimentar com a simpatia de sempre. Mas, naquele dia, não conseguia disfarçar a irritação em que se sentia mergulhada há um par de dias. Ainda mal se tinha acomodado na cadeira, e já deixara estalar o verniz. “Tenho-me sentido desconsiderada por toda a gente”, atira, fulminante. Descreve-me, zangada, uma série de incidências no trabalho: da chefe que agendou uma reunião, sem auscultar a sua disponibilidade de agenda; ao coordenador que a atirara aos leões numa reunião com a administração, passando pelos colegas que foram almoçar sem si. Parecia sentir-se como se, de repente, toda a empresa se tivesse unido para a tramar.

  Com a cabeça pesada, decidiu ir buscar a filha mais cedo ao infantário (mesmo que isso lhe custasse horas extra de trabalho, noite adentro). Precisava de sentir a beleza do mundo no abraço da filha. E, na verdade, andara todo o dia consumida por uma culpabilidade de fundo. Logo pela manhã tinha-se sentido a perder as estribeiras (e a moderação dos decibéis) sem nada que o justificasse.

  A pequena Francisca iluminou-se num sorriso rasgado quando viu a mãe, mas logo a seguir travou a fundo. Não foi de modas e não deixou o infantário sem ensaiar uma birra, que foi crescendo exponencialmente de exuberância, à medida que subiam os decibéis da zanga materna. Aquilo que seria, porventura, um protesto e um apelo da Francisca ao regresso da capacidade materna para a parar e serenar, foi sentido pela Maria como um ataque insuportável. Como é que a Francisca podia estar a ser tão ingrata, logo hoje que mandou o tudo ao alto para a ir buscar mais cedo? Como é que a Francisca se atrevia, logo hoje que precisava tanto de sentir a beleza do mundo no seu abraço?

  Depois destes relatos irritados que lhe saíram de rajada, a Maria parecia agora mais calma. A raiva parecia ter dado lugar a uma tristeza profunda. Passavam-lhe, pela cabeça, uns atrás dos outros, vários episódios de vida em que se sentira sem espaço, incompreendida, desqualificada, injustiçada. Deteve-se num em particular: seria um par de anos mais velha do que a Francisca. Esmerou-se a fazer um desenho para o pai. Quando o terminou correu, para ele. Mal podia esperar para sentir o seu olhar de orgulho.  Mas ele parou-a, de forma brusca, sem tirar os olhos da televisão, com um: “mas será que já não se pode ter sossego nesta casa, irra!”. Sem saber bem porquê, esta memória fez-lhe soar a campainha de alarme:

  E se estivesse só a projetar, na Francisca, dores suas? E se estivesse a exigir-lhe uma capacidade de acolhimento que, porventura, deveria era estar a pedir aos adultos imprescindíveis da sua vida?

  Talvez não haja muito como a infância (e os aspetos significativos da vida) dos adultos não se refletir, de forma muito significativa, no modo como gerem a relação com os filhos (com os companheiros, os pais, os amigos ou o trabalho). A ser assim, de cada vez que não encontram espaços relacionais para pensar a sua experiência emocional, mais próximos estarão de se tornarem prisioneiros dela. A ser assim, ora mais movidos pelo agir impulsivo, ora mais paralisados pelo desamparo e pelo isolamento, mais próximos estarão de projetar massivamente as suas experiências emocionais na relação com o outro, numa espécie de repetição contínua da mágoa.

  Pelo contrário, de cada vez que as pessoas encontram espaços relacionais que as ajudem a compreender e legendar a intensidade do que sentem, qual movimento de libertação da tirania da repetição e do desamparo, mais próximas estarão da liberdade de poder escolher fazer diferente.

Nota: Atendendo ao profundo respeito pela intimidade das pessoas que me dão o privilégio de guardar as suas histórias e aos princípios deontológicos a que estou vinculado (de sigilo, nomeadamente), como não poderia deixar de ser, este, como todos os textos do blogue - sendo, uma ou outra vez, inspirados num ou noutro aspeto de histórias reais - está muito longe de corresponder a uma descrição literal.

05Mar.

   Tinha-se desunhado para conseguir bilhetes. Afinal de contas, tinham sido muitas as noites em que cada uma daquelas melodias lhe amparava a solidão. Tinham sido muitas as noites em que cada uma daquelas letras parecia ter sido escrita para legendar fragmentos da sua dor. Mas agora, que estava ali, bem no meio da multidão, uma inquietação difusa insistia em atrapalhar-lhe a comoção. Por mais que tentasse mergulhar no ambiente intenso do concerto, estava mais atenta ao ar de enfado do Mário. Quanto mais o tentava puxar para si, mais a distância parecia crescer e crescer. E a pergunta: “mas este tipo não tem mesmo noção nenhuma do quão isto é importante para mim?” ecoava-lhe de tal forma na cabeça que, de repente, o concerto já só parecia uma formalidade para assinalar no instagram. Às páginas tantas, o Mário decide ir buscar bebidas. E, finalmente, a Joana pôde, por uma vintena de minutos, mergulhar no concerto. Dançar, cantar em uníssono com a multidão, comover-se. Até que o concerto terminou, num registo épico, com a multidão a dançar à chuva e o artista a convidar os fãs para subirem ao palco, para a celebração final. E do Mário nem sinal. Entre mensagens e chamadas frustradas, a Joana vai caminhando pelo recinto, até que dá de caras com o Mário agarrado a uma ex-namorada. Ficou destroçada. E assim permaneceu por longos meses.

   Até que o João insistiu em entrar na sua vida. E, pouco a pouco, fez questão de meter o Mário a um canto: era interessante, inteligente, sensível, atento, firme, vivaço, bondoso; um poço de charme. E a Joana andava nas nuvens. Nunca se tinha sentido tão sintonizada com ninguém.

   O João, num daqueles golpes de charme, desunhou-se para surpreender a Joana: conseguiu bilhetes para o esgotadíssimo concerto do seu artista predileto. Corria bem a noite, com o casal a desfrutar de toda aquela beleza. Até ao momento em que o João se ofereceu para ir buscar bebidas. Aquele movimento cuidadoso de quem não queria que a namorada perdesse pitada do seu concerto de sonho, caiu que nem uma bomba na Joana. Num ápice, o seu rosto transfigura-se para uma sisudez que o João nunca lhe vira. Agarra-se com força ao braço do namorado e num tom duro e autoritário diz-lhe: eu vou contigo. O João tenta compreender o que se passa. E, sem perceber bem como, a Joana está, irreconhecível, a discutir consigo no meio da multidão.

   As pessoas (todas as pessoas!) transportam o essencial da sua história relacional para cada uma das suas novas relações significativas. É assim com as mágoas e os desamparos. É assim com as experiências mágicas, de sintonia, que foram guardando. E vão construindo padrões relacionais. E, sem se darem conta, vezes de mais vão empurrando o outro (significativo) para replicar consigo os padrões a que se foram habituando... na secreta esperança de que o outro (significativo) seja capaz de quebrar o padrão e de se dar como parceiro na construção de novos modos de relação, mais livres, vivos e saudáveis. 

Nota: Atendendo ao profundo respeito pela intimidade das pessoas que me dão o privilégio de guardar as suas histórias e aos princípios deontológicos a que estou vinculado (de sigilo, nomeadamente), como não poderia deixar de ser, este, como todos os textos do blogue - sendo, uma ou outra vez, inspirados num ou noutro aspeto de histórias reais - está muito longe de corresponder a uma descrição literal.

23Set.

  O olhar enfiado no chão, quando lhe abri a porta, e o passo pesado, como se carregasse o mundo às costas, condizia com a voz arrastada com que o tinha conhecido ao telefone. Mas bastaram poucos minutos para, do alto dos seus 70 anos, emanar uma beleza profunda de quem já parecia ter vivido sete vidas e sobrevivido a outras tantas. Contava histórias com a beleza honesta das entranhas: umas extraordinariamente duras; outras a revelarem, com intensidade, que a bondade também é marca humana. Umas profundamente tristes. Todas muito bonitas. Todas contadas com um afeto do tamanho do mundo.

  O Alberto cresceu num contexto de profunda pobreza. Passou por privações materiais severas e por variadíssimas experiências que hoje seriam, sem quaisquer dúvidas, classificadas como maus-tratos muito graves. Recostado na cadeira, ouvia, maravilhado. Como era possível manter aquele afeto no olhar depois de tantas e tantas experiências de um sofrimento inimaginável? Como era possível, apesar do peso da sua história, despertar, no outro, gestos de bondade, de forma tão generalizada? Não demorou até que o Alberto desse a senha para alguma compreensão. A Professora Lurdes matara-lhe a fome, tantas e tantas vezes. Enfrentou quem lhe fizera mal, e criou as condições para que pudesse dar asas ao sonho de estudar. O seu rosto ilumina-se quando fala da velhinha Professora Lurdes.

  Recostado na cadeira limito-me a ouvir. E a saborear aquela experiência rara. O Alberto emana beleza, vida e bondade por todos os poros. Tinha tudo para ser amargo, seco, desvitalizado, hostil. Mas não é! Tinha tudo para fazer como aquelas pessoas que insistem que o seu problema é serem demasiado boas pessoas, ao mesmo tempo que não conseguem disfarçar uma hostilidade de fundo. Mas não faz! E contagia. É impossível não gostar do Alberto! Foi assim que foi despertando invejas, mas sobretudo, gestos genuínos de respeito, afeto e aproximação.

  Por mais extraordinária que seja a história de vida do Alberto – e é, sem qualquer espécie de dúvida – não há como não deixar sombras. Talvez me tenha procurado porque se queira (finalmente) zangar com quem lhe fez mal (uns mais por ignorância e privação; outros por inveja ou perversidade sádica). Talvez seja essa a brecha de luz que procura para se iluminar do direito pleno de gozar a vida.

 Nota: Atendendo ao profundo respeito pela intimidade das pessoas que me dão o privilégio de guardar as suas histórias e aos princípios deontológicos a que estou vinculado (de sigilo, nomeadamente), como não poderia deixar de ser, este, como todos os textos do blogue - sendo, uma ou outra vez, inspirados num ou noutro aspeto de histórias reais - está muito longe de corresponder a uma descrição literal.

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