E se marcássemos às 9?

17Mar.

   Já tudo a irritava no marido: a inércia, o perfume, o toque, a maneira como mastigava ou adormecia no sofá, na hora da novela. Há muito que se divorciara, na verdade. Só não conseguia, ainda, imaginar-se a oficializar a separação sem que disparassem, dentro de si, todos os sinais de alarme. Foram, afinal de contas, muitos anos deste registo (cada vez mais) doloroso, mas conhecido. E para lá do Bojador do divórcio desconhecido, quantos seriam os Adamastores? Mal ou bem, sempre vão existindo discussões à volta da roupa fora de sítio, e almoços de família alargada ao domingo. E, por mais, que a Maria se vá sentindo cada vez mais sozinha, o ruído e a azáfama vão fintando o vazio (ao mesmo tempo que o alimentam) que, tantas e tantas vezes, a sufoca.

   O que restaria se arriscasse o divórcio? E, mais a mais, quem sabe se, num passe de mágica, não poderiam voltar ao paraíso perdido de uma sintonia há muito desaparecida? pergunta-se a Maria, com mais ruído do que convicção. E, mais importante do que tudo, sublinhava a Maria: há os filhos e uma ideia de família. “Ai, se não fossem os meus filhos”, atira a Maria, a fazer lembrar a máxima do agarrem-me se não eu vou-me a eles. Para, logo a seguir, com a transparência e a coragem de quem é capaz de se pôr em causa, pontuar: como se a clareza de uns pais que decidem separar-se provocasse mais estragos do que os sentir, um dia atrás do outro, a desencontrarem-se da vida. Como se a clareza de uns pais que decidem separar-se provocasse mais estragos do que a violência das escaladas verbais ou das semanas a fio sem trocarem palavra.

   Um divórcio será sempre muito doloroso. Para todos. Para os adultos que, de uma assentada, se vêm a braços com o luto de um amor, de um projeto e estilo de vida, e com a imensidão do desconhecido que se abre no horizonte. E para os filhos que, tantas e tantas vezes, se sentem enredados em conflitos de lealdades, sem saberem muito bem como podem fazer valer o seu desejo (e direito inalienável!) de terem mãe sem abdicarem do pai, e vice-versa. Será, por isso, natural – e desejável! - que os pais não deixem de se preocupar com o impacto que um divórcio poderá ter na vida de uma criança. Já esta ideia de fazer pender sobre as crianças a responsabilidade de se manter ou não um casamento, não me parece poder fazer bem a ninguém. Não fará bem aos adultos, que se escudam nas crianças, na hora de assumirem as rédeas das suas vidas. E não fará bem às crianças, que tudo o que menos precisam é sentirem-se (entre os não-ditos e uma ou outra palavra solta) responsáveis pelo olhar triste do pai ou pela solidão da mãe. Pelo contrário, crescerão melhor sempre que o pai e a mãe são capazes de - muito mais por bons exemplos do que por bons conselhos – lhes mostrar que vale a pena recomeçar as vezes que forem necessárias (no casamento, no divórcio, na vida) para, com esperança, medo e coragem, nunca deixarem de ir à luta para serem mais felizes!

Nota: Atendendo ao profundo respeito pela intimidade das pessoas que me dão o privilégio de guardar as suas histórias e aos princípios deontológicos a que estou vinculado (de sigilo, nomeadamente) este, como todos os textos do blogue - sendo, por vezes, inspirado num ou noutro aspeto de histórias reais – está, como não poderia deixar de ser, muito longe de corresponder a uma descrição literal.

27Jun.

  Os bebés têm uma curiosidade natural. Comportam-se como se fossem os guardiões do espanto, da atenção e do encantamento pelo mundo e pelo conhecimento. Exploram, com a mão, cada recanto do rosto da mãe; encantam-se ao ver, pelas primeiras vezes, as folhas das árvores a abanar com o vento. Quais cientistas certificados, atiram para o chão, vezes e vezes sem conta, todo e qualquer objeto, só para o seguirem, atentamente, na sua trajetória e comportamento. Analisam (com a ponta dos dedos... e com a boca, pois claro!) cada pormenor das texturas das árvores, das ervas ou da terra. 

11Dez.

Já nos conhecemos bem. Temos, afinal de contas, passado horas a olhar para dentro um do outro. Com um sentido de humor apurado, que tem vindo a (re)descobrir em si, atira um provocatório: “ainda não matei o pai”, servindo-se do mito de Édipo que a metáfora de Freud popularizara há mais de 100 anos, para falar da forma como, invariavelmente, se foi sentindo pequenino perante a autoridade (e o desejo, mais ou menos secreto, de a afrontar).

15Mar.

A inteligência, o jeito despachado e a competência têm-lhe vindo a garantir a progressão profissional que ambiciona. Mas, na vida pessoal, tudo lhe parece emperrar muito mais do que a conta. Passou meses a suspirar, em surdina, pelo Francisco, o colega da secretária do lado, de quem se foi aproximando. Os fins de dia passava-os a espreitar o telemóvel a cada cinco minutos, como se olhando mais vezes, aumentasse a probabilidade de cair uma mensagem do Francisco. As noites, essas, passava-as enroladinha em posição fetal, a fantasiar com ele, até adormecer. Até ao dia em que o Francisco, num sopro de arrojo, se chegou à frente! Mas, perante o momento com que tantas vezes fantasiara, a Maria não foi capaz de mais do que um chega para lá assustado, numa espécie de repetição (de formatos vários) do toca e foge com que, vezes de mais, foi entorpecendo a sua vida amorosa. 

07Mar.

Há muito que não ia a um Festival de Verão. Não que tivesse deixado de gostar de música. Mas o último tinha sido tão dolorosamente inesquecível que, nos anos seguintes, só os outdoors a anunciar as bandas a deixavam de cabelos em pé. Passaram cincos anos desde que se desunhou para surpreender o João com dois bilhetes para o esgotadíssimo concerto da banda que tinham adotado como a “oficial” do seu amor. Se a reação frouxa do João não deixou de intensificar umas quantas luzes de alerta que, há muito, vinham crescendo dentro da Maria, o pior estava para vir. 

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