E, num ápice, o coração disparava em batimentos cada vez mais acelerados. Quanto mais o tentava acalmar, mais ele batia, até quase sair pela boca. Ficava de tal forma assustada quando aumentava o ritmo cardíaco que, quando se sentia mais frágil, dava por si a evitar as corridas de 4ª feira, com o grupo informal de atletismo que integrara, com entusiasmo, há um par de meses. Já os exames da Faculdade, que se aproximavam a passos largos, eram mais difíceis de evitar. Mais do que o medo dos exames em si, o que a angustiava parecia ser o medo do medo que estes lhe podiam despertar. Na verdade, a Maria gastava, por estes dias, muita energia a tentar evitar, o mais que podia, quaisquer situações que lhe pudessem despertar medo: deixou de andar em autocarros apinhados, em hora de ponta; cortou nas saídas com os amigos, sempre que estas incluíam um bar novo, e até o convite para café do Miguel, pelo qual suspirava há semanas, acabou por recusar com uma desculpa mais ou menos esfarrapada.
Nunca, na história da Humanidade, teremos tratado tão bem a infância como nos nossos dias. Democratizámos o acesso à Escola. Criminalizámos maus-tratos violentos que ainda há poucas décadas eram ignorados ou perspetivados como práticas educativas aceitáveis. Fomos capazes de formalizar os direitos da criança, e de criar estruturas (a carecer de melhorias, é certo) para os proteger. Talvez com a exceção da diminuição substancial do brincar ao ar livre que se tem vindo a agravar, e da omnipresença dos ecrãs, nunca, na história da Humanidade, teremos tratado tão bem as crianças como hoje. E, ainda assim, está tudo por fazer!
Na era da Inteligência Artificial, parecemos, ainda, conhecer mal as crianças, e distrairmo-nos, vezes de mais, em relação a aspetos essenciais do seu crescimento. Às vezes por falta de conhecimento. Outras, porventura, porque os episódios dolorosos da infância dos adultos lhes entorpecem a sensibilidade e a sabedoria (construídas ao longo de milénios de cuidados às crias).
Abriu a porta do armário, não para tirar a bola como costumava fazer, mas para entrar e se aconchegar no escuro, em posição fetal. Quando, um punhado de segundos depois, eu abria a porta, incandescia-se-lhe o rosto num sorriso luminoso.
Depois de repetir vezes sem conta estes movimentos pendulares de esconder-se/ser encontrado/ esconder-se/ser encontrado, o Francisco perguntou-me se tinha filhos, primeiro; onde vivia, depois, e, por fim, se recebia outros meninos. Expliquei-lhe que vivia suficientemente perto para estar sempre à espera dele na nossa hora; e que podiam vir todos os meninos do mundo que aquela continuaria, sempre, a ser a sua hora. Só sua! Não satisfeito, continua:
Há anos que o ressentimento vinha a crescer. Partilhava, com as amigas, as mágoas de um casamento que se desmoronava cada dia mais um bocadinho. Nos últimos tempos, os jantares na última 6ª feira do mês, que religiosamente mantinham, mais pareciam uma espécie de lamento partilhado sobre a falta de comparência dos maridos ao romantismo, à participação nas tarefas domésticas, ou à forma como substituem as palavras por murmúrios na hora de conversarem sobre como se sentem, ou como podem revitalizar a relação. Era ali, naquele grupo de amigas, que se sentia acolhida. Era ali, naquele grupo de amigas, que pensava alto as ideias: primeiro sobre como salvar o casamento, depois sobre como assumir que o queria terminar.
Exausto, em falha, a correr atrás do prejuízo, no limite, tenso, muito tenso e sozinho, muito sozinho: é assim que, há muito, o Carlos se tem vindo, cada vez mais, a sentir. Primeiro era o percurso profissional que era preciso solidificar, depois vieram as filhas cujo futuro era necessário acautelar. A seguir, à falta de melhor justificação, a vontade de se superar e fazer mais e mais. Ou, dito de outro modo: correr por correr (ou por dever), sem saber como e se pode parar.
Nunca se esquece de um aniversário de casamento, nem de nenhuma data importante para a família. Das rosas vermelhas aos presentes caros... cumpre sempre. O que importa que seja muito mais com sentido de dever do que com a alegria e o prazer de festejar?
Faz por ir aos jogos de basket da filha mais nova, e às audições de piano da mais velha. E, ao primeiro revirar de olhos da mulher, até deixa de espreitar o e-mail ou o whatsapp de trabalho. O que importa que nunca se deixe levar pela música ou entusiasmar com o jogo?
Na hora de planear as férias, tranca as semanas no escritório para as passar em família, como deve ser. O que importa que a angústia se agigante nas alturas em que seria suposto descontrair?
