E se marcássemos às 9?

05Jan.

   Nunca, na história da Humanidade, teremos tratado tão bem a infância como nos nossos dias. Democratizámos o acesso à Escola. Criminalizámos maus-tratos violentos que ainda há poucas décadas eram ignorados ou perspetivados como práticas educativas aceitáveis. Fomos capazes de formalizar os direitos da criança, e de criar estruturas (a carecer de melhorias, é certo) para os proteger. Talvez com a exceção da diminuição substancial do brincar ao ar livre que se tem vindo a agravar, e da omnipresença dos ecrãs, nunca, na história da Humanidade, teremos tratado tão bem as crianças como hoje. E, ainda assim, está tudo por fazer!

         Na era da Inteligência Artificial, parecemos, ainda, conhecer mal as crianças, e distrairmo-nos, vezes de mais, em relação a aspetos essenciais do seu crescimento. Às vezes por falta de conhecimento. Outras, porventura, porque os episódios dolorosos da infância dos adultos lhes entorpecem a sensibilidade e a sabedoria (construídas ao longo de milénios de cuidados às crias).

21maio

    Abriu a porta do armário, não para tirar a bola como costumava fazer, mas para entrar e se aconchegar no escuro, em posição fetal. Quando, um punhado de segundos depois, eu abria a porta, incandescia-se-lhe o rosto num sorriso luminoso.

  Depois de repetir vezes sem conta estes movimentos pendulares de esconder-se/ser encontrado/ esconder-se/ser encontrado, o Francisco perguntou-me se tinha filhos, primeiro; onde vivia, depois, e, por fim, se recebia outros meninos. Expliquei-lhe que vivia suficientemente perto para estar sempre à espera dele na nossa hora; e que podiam vir todos os meninos do mundo que aquela continuaria, sempre, a ser a sua hora. Só sua! Não satisfeito, continua:

09maio

   Há anos que o ressentimento vinha a crescer. Partilhava, com as amigas, as mágoas de um casamento que se desmoronava cada dia mais um bocadinho. Nos últimos tempos, os jantares na última 6ª feira do mês, que religiosamente mantinham, mais pareciam uma espécie de lamento partilhado sobre a falta de comparência dos maridos ao romantismo, à participação nas tarefas domésticas, ou à forma como substituem as palavras por murmúrios na hora de conversarem sobre como se sentem, ou como podem revitalizar a relação. Era ali, naquele grupo de amigas, que se sentia acolhida. Era ali, naquele grupo de amigas, que pensava alto as ideias: primeiro sobre como salvar o casamento, depois sobre como assumir que o queria terminar.

15Abr.

   Exausto, em falha, a correr atrás do prejuízo, no limite, tenso, muito tenso e sozinho, muito sozinho: é assim que, há muito, o Carlos se tem vindo, cada vez mais, a sentir. Primeiro era o percurso profissional que era preciso solidificar, depois vieram as filhas cujo futuro era necessário acautelar. A seguir, à falta de melhor justificação, a vontade de se superar e fazer mais e mais. Ou, dito de outro modo: correr por correr (ou por dever), sem saber como e se pode parar.

   Nunca se esquece de um aniversário de casamento, nem de nenhuma data importante para a família. Das rosas vermelhas aos presentes caros... cumpre sempre. O que importa que seja muito mais com sentido de dever do que com a alegria e o prazer de festejar?

   Faz por ir aos jogos de basket da filha mais nova, e às audições de piano da mais velha. E, ao primeiro revirar de olhos da mulher, até deixa de espreitar o e-mail ou o whatsapp de trabalho. O que importa que nunca se deixe levar pela música ou entusiasmar com o jogo?

   Na hora de planear as férias, tranca as semanas no escritório para as passar em família, como deve ser. O que importa que a angústia se agigante nas alturas em que seria suposto descontrair?

24Mar.

   Vinha irritado com o agente imobiliário, que o tentara convencer, insistentemente que, com todos as alternativas modernas de aquecimento, já não faz sentido ter uma lareira. Mas, ao António, não havia agente imobiliário, nem simulação de poupança ou eficiência energética que o demovesse: a casa maior que procura, agora que a família está novamente a crescer, tem de ter lareira!

   O crepitar das chamas, a meia-luz, o cheiro, tudo na lareira parece ser uma autoestrada para as histórias (e as pessoas!) de aconchego que saltitam dentro de si. Lembram-lhe a velha cozinha da avó materna, que com o ar mais ternurento do mundo lhe assava, nas brasas, as melhores castanhas que alguma vez comera. Transportam-no para os Natais, na velha casa da avó paterna, com a imensidão de tios e primos (parecem sempre mais, quando somos pequenos, pontua o António) - a acotovelarem-se calorosamente à volta da lareira, enquanto britavam nozes e contavam histórias, noite dentro. E, sobretudo, despertam em si, o misto de encantamento, aconchego e segurança que sentia quando, nas suas palavras: o meu pai me ia buscar à escola, no final do dia, e a primeira coisa que fazia quando chegávamos a casa era acender a lareira. Aquilo fazia o meu dia! Recorda, ainda, os serões em família, com um olho na lareira e o outro no Roque Santeiro: morria de medo do Lobisomem. Escondia-me atrás do casaco do meu pai, mas não conseguia deixar de espreitar. O processo era sempre o mesmo: assustava-me de morte, o meu pai apertava-me contra ele, e sentia-me o menino mais seguro e corajoso do mundo. Adorava aquilo!

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