Com teste positivo para a COVID-19 nos primeiros dias de Janeiro, a que se sucederam testes positivos a toda a família nuclear, depressa as fortes dores de cabeça e de corpo tomaram conta do Manuel. Mas, por mais que as dores o incomodassem muito, o que mais lhe doía era mesmo a ideia de poder ter sido ele a contaminar a família. Por mais que todos estivessem, apenas, com sintomas ligeiros, era difícil não se deixar engolir por uma angústia avassaladora que, ora em lume brando, ora a todo o vapor, o transportava para um crescendo de cenários catastróficos, que não conseguia parar: as filhas, apesar de saudáveis, poderiam, azar dos azares, acabar agarradas a um ventilador? E a mulher? O que poderia acontecer à mulher? E se as perdesse?
Sim, estamos cheios de medo! De adoecer, de morrer, de perder pessoas rigorosamente imprescindíveis. De, sem querer, disseminarmos o mal. Sim, estamos cheios de medo! Da possibilidade das imagens trágicas de hospitais em rutura que nos chegaram de Itália, Espanha e tantas outras geografias se repetirem connosco. Sim, estamos cheios de medo! Da avalanche económica que todos já percebemos colossal. E estamos tristes. Pela vida mais ou menos suspensa por mil e um constrangimentos; pelos longos e penosos 10 meses sem tocar, cheirar, abraçar, beijar alguns dos que mais gostamos. Pior, porque muitos de nós, dramaticamente, já perderam pessoas preciosas. E estamos zangados, muito zangados! Um vírus, vindo do nada, virou-nos a vida do avesso e deu corpo a um batalhão de fantasmas! A realidade (dramática!) dos hospitais entra-nos casa adentro, e amplia mais e mais a intensidade do que vamos sentindo.
